Por que há iranianos clamando pelo retorno do Xá?


Um boletim completo sobre a participação monarquista nos protestos contra o governo do Irã.

BANDEIRAS DO IRÃ IMPERIAL E UM CARTAZ COM A IMAGEM DO ÚLTIMO XÁ, DEPOSTO EM 1979, SÃO CARREGADOS POR MANIFESTANTES REUNIDOS EM LOS ANGELES, NOS ESTADOS UNIDOS, PARA PROTESTAR CONTRA O GOVERNO IRANIANO (REPRODUÇÃO/©REUTERS)

O Príncipe Reza Pahlavi, filho do último Xá do Irã, surpreendeu-se ao saber que, durante os recentes protestos, o nome de seu pai era invocado pelas ruas do país, hoje uma República teocrática islâmica.

Pela primeira vez em décadas, o Xá Mohammad Reza Pahlavi surgia outra vez nos lábios e nas mentes de cidadãos iranianos. "Reza Xá, descanse em paz!", "Como erramos ao tomarmos parte na Revolução!", "Tragam o Xá de volta!" eram algumas das palavras ditas por manifestantes ao redor do país.

Mesmo em Qom e Mashhad, duas das cidades mais ortodoxas do país, cartazes com a foto do último Xá eram observados.

"É como quando as nuvens obscurecem o sol por algum tempo - em dado momento, a luz prevalece", disse o Príncipe ao Telegraph na última semana.

O Príncipe Herdeiro, hoje com 57 anos, deixou o Irã quando adolescente, depois que seu pai, o Xá Mohammad Reza Pahlavi, foi derrubado pela Revolução Islâmica, em 1979. Ele atualmente lidera um movimento de oposição ao regime, diretamente de sua residência no estado americano de Maryland.

O PRÍNCIPE HERDEIRO DO IRÃ, REZA PAHLAVI, DURANTE ENTREVISTA À REUTERS, EM WASHINGTON (REPRODUÇÃO/©REUTERS)

Tempo e perspectiva trouxeram certa nostalgia pelo passado monárquico, afirma o Príncipe Imperial.

"O que eu mais ouço dos iranianos com quem falo é que eles culpam seus pais pelo que aconteceu em 1979, que lamentam por terem os colocado na situação que hoje enfrentram. A maior parte deles me diz que não cometeria o mesmo erro de seus pais", diz Sua Alteza Imperial.


NO TWITTER, UM USUÁRIO REGISTROU OS GRITOS LEVANTADOS POR MANIFESTANTES NO IRÃ: "PRÍNCIPE REZA, VENHA NOS SOCORRER!"

Contra as manifestações monárquicas, uma estudiosa iraniana, também entrevistada pelo jornal britânico, considera que essa geração mais jovem não vê o Xá como ele realmente era. "Ele é tudo o que o Aiatolá (Ali Khamenei, Líder Supremo do Irã) não é, e, para eles, isso já é suficientemente bom".

É fato que mais de dois terços da atual população do Irã nasceu depois de 1979 e não possui nenhuma lembrança ou experiência daquele tempo de antes da Revolução, quando os iranianos rejeitaram sua Monarquia secular para viver sob um regime clerical islâmico.

SEXTA-FEIRA DE ORAÇÃO EM TERRÃ (REPRODUÇÃO/©AP)

Também os Xás da Dinastia Pahlavi conduziram um período de repressão a comunistas e fundamentalistas islâmicos, fazendo uso de um serviço secreto, tortura e execuções para conter dissidentes políticos, conforme aponta o jornal.

A fidelidade perceptível às potências estrangeiras, a corrupção e os excessos da Família - cuja riqueza do produto do petróleo foi estimado em US$ 20 bilhões (15 bilhões de libras esterlinas) - ultrajaram as classes médias à época.

Hussein Mehrzad, um iraniano que trocou Teerã pela França em 1979, recorda-se do momento em que um garoto lhe orientou a nunca manifestar qualquer oposição pública contra o Xá, controlando suas emoções quando fora de casa. "Tínhamos medo da polícia secreta, conhecida como SAVAK, assim como hoje os iranianos temem o Basij (uma das cinco forças do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica)".

O ÚLTIMO XÁ DO IRÃ, MOHAMMAD REZA PAHLAVI, EM 1967 (CHARLES TASNADI/©AP)

Os monarquistas iranianos lamentam certos aspectos desse passado, mas afirmam, em contrapartida, que o país, por outro lado, obteve grande progresso sob a Monarquia, desfrutando de boas relações com o Ocidente, crescimento industrial rápido e uma economia forte. "Ao menos, sob a Monarquia, tínhamos liberdade social e nosso passaporte tinha algum valor", afirma Hamid, um estudante de 24 anos que reside em Ahvaz, sudoeste do Irã.

O maior acesso à tecnologia expôs pela primeira vez muitos jovens iranianos à sua própria História, o que, segundo o jovem, abriu uma janela para o mundo: "Estamos agora mais conectados a ele do que nunca, mas isso, ao mesmo tempo, mostrou-nos quão distantes desse universo estamos", afirma.

NÃO SÓ NO IRÃ, MAS AO REDOR DO MUNDO, CLAMORES PELA QUEDA DO REGIME: EM PARIS, PORTANDO BANDEIRAS IMPERIAIS, CENTENAS DE IRANIANOS PEDEM O FIM DA "DITADURA DOS MULÁS" (REPRODUÇÃO/©EPA)

As mídias estatais iranianas referem-se frequentemente à Monarquia como "despótica", enquanto os alunos são ensinados sobre seus males. Qualquer declaração pública de simpatia pela Dinastia, ou por qualquer outro movimento de oposição, é impensável.

"O regime reprimiu de tal forma o debate a respeito dos Pahlavis, que isso acabou tendo o efeito contrário, tornando os jovens curiosos a respeito desse passado desconhecido", diz Andrew Scott Cooper, autor de The Fall of Heaven: The Pahlavis and The Last Days of Imperial Iran.

Ele acredita que essas manifestações distinguem-se consideravelmente dos protestos de 2009, que começaram como resposta ao que a oposição reformista viu como uma eleição fraudada.

UMA MULHER IRANIANA ERGUE SEU PUNHO EM MEIO A UMA NUVEM DE GÁS LACRIMEJANTE NA UNIVERSIDADE DE TEERÃ (REPRODUÇÃO/©AFP)

Algumas vozes pediram a remoção de Khamenei, mas eram limitadas; os líderes do movimento se esforçaram para dizer que não pretendiam derrubar o sistema, seja por pragmatismo ou por verdadeira fé no potencial "republicano" da "República Islâmica".

Hoje os manifestantes estão gritando "Morte ao ditador".

Impulsionado pelos slogans e cânticos feitos em seu nome, o Príncipe Herdeiro surgiu em meio aos protestos para denominá-los de "período mais crítico da História do Irã".

"Desde o início, a forma como eles organizam as eleições é colocar candidatos pré-aprovados, de [Ali Akbar] Rafsanjani, a [Mohammed] Khatami a [Mahmoud] Ahmadinejad até [o presidente Hassan] Rouhani hoje", acusa o Príncipe Imperial. "Então, a única escolha que propiciaram aos iranianos foi a da opção do menor entre dois males, todos previamente apontados pelo grande 'manipulador de marionetes' - o Aiatolá".

O AIATOLÁ ALI KHAMENEI, LÍDER SUPREMO DO IRÃ (REPRODUÇÃO/©AP)

"O povo pensou que, talvez, desta vez, Rouhani pudesse conduzir as reformas esperadas. Afinal, foi o que ele prometeu", diz Pahlavi. "Mas isso não aconteceu e agora os iranianos estão totalmente desiludidos, perderam toda a esperança de que o atual regime opere qualquer reforma que seja".

Sua Alteza Imperial não visualiza uma restauração monárquica para já, mas espera que se opere um movimento de virada do atual sistema teocrático para um regime secular.

Questionado sobre qual papel gostaria de assumir caso a queda do atual regime aconteça, o Príncipe diz: "No momento, minha única preocupação reside em liderar um movimento de oposição pela queda do atual regime". Defensor dos direitos humanos e da democracia, ele afirma que "somente um processo democrático poderá determinar quais serão a nova forma e o novo sistema de governo a tomarem lugar".

Não está claro que futuro aguarda o Irã. Os protestos têm sido cada vez mais contidos e manifestantes presos, além disso, nenhum impulso claro de liderança surgiu.

Mas Sua Alteza Imperial considera que, agora o gênio está fora da garrafa, não será tão fácil colocá-lo de volta. "Isso é o início de uma revolução, tenho certeza, e revoluções não acontecem do dia para a noite", afirma. "Olhe para a de 1979, levou um ano para acontecer. A História é feita de altos e baixos, de modo que é preciso paciência. Venho aguardando um momento como esse há 38 anos".

Aguardemos então.

VIA TELEGRAPH

#Irã #Monarquistas #RezaPahlavi #PríncipeHerdeirodoIrã #PríncipeImperialdoIrã #ImperatrizdoIrã #XáMohammadRezaPahlavi #Manifestação #Protesto

Banner wallpaper bandeira imperial.png

Todos os direitos reservados © Diga Sim à Monarquia - 2014-2020